1 SALVA-NOS, SENHOR, porque faltam os homens bons; porque são poucos os fiéis entre os filhos dos homens.
2 Cada um fala com falsidade ao seu próximo; falam com lábios lisonjeiros e coração dobrado.
3 O SENHOR cortará todos os lábios lisonjeiros e a língua que fala soberbamente.
4 Pois dizem: Com a nossa língua prevaleceremos; são nossos os lábios; quem é SENHOR sobre nós?
5 Pela opressão dos pobres, pelo gemido dos necessitados me levantarei agora, diz o SENHOR; porei a salvo aquele para quem eles assopram.
6 As palavras do SENHOR são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes.
7 Tu os guardarás, SENHOR; desta geração os livrarás para sempre.
8 Os ímpios andam por toda parte, quando os mais vis dos filhos dos homens são exaltados.
Há vários estudos disponíveis na internet que apresentam em linhas gerais as características pertinentes à poesia hebraica. A poesia hebraica é composta por várias repetições de idéias, que denominam paralelismo.
Através deste recurso literário o poeta aborda uma idéia, e em seguida, a reafirma utilizando palavras diferentes ou apresenta outra idéia equivale para complementar ou evidênciar a idéia abordada.
A poesia hebraica é rica em idéias, e quando ela é traduzida estes valores não se perdem, diferente das poesias ocidentais que valorizam as rimas e o ritmo, característica que se perde quando é traduzida em outros idiomas.
Como a poesia hebraica valoriza as idéias, é necessário quando da interpretação dos salmos identificar a idéia base onde todas as outras idéias foram agrupadas e os tipos de paralelismo.
Não apresentaremos aqui os tipos de paralelismo, as suas classificações e os porquês dessas classificações. Trabalharemos somente a idéia que o salmista apresentou e o leitor terá a oportunidade de verificar estes recursos literários em outra oportunidade.
Em outros salmos o salmista Davi clama a Deus utilizando a primeira pessoa do singular "Ó Senhor, não me repreendas na tua ira..." Sl 6: 1. Este salmo é diferente, o salmista clama a Deus utilizando a primeira pessoa do plural: Salva-nos Senhor!
O salmista clama demonstrando que Ele e outras pessoas precisavam da salvação de Deus. Por que ele utilizou a primeira pessoa do plural ao pedir por salvação? A salvação não é individual?
Esta é a idéia base onde todas as outras idéias serão agregadas e o poema composto: Salva- NOS, Senhor.
Em seguida o salmista acrescenta à sua petição (salva-nos), os motivos pelos quais (ele e outras pessoas), a humanidade precisa da salvação de Deus: "... porque faltarem os homens bons".
Se considerarmos que a poesia hebraica é construída de paralelismo, conclui-se que só será suprida a falta de homens bons quando Deus salva-los. O salmista não terminou a oração com uma conclusão, e sim, introduziu um motivo pelo qual a humanidade precisa da salvação de Deus: porque falta de homens bons.
Através destas duas análises iniciais (a poesia hebraica é construída de paralelismo de idéias e que a segunda idéia apresenta um motivo e não uma conclusão), faz-se necessário perguntar: Qual a relação que há entre a salvação de Deus e a bondade do homem?
O salmista apresenta a salvação de Deus como sendo o elemento que concede ao homem a condição de bondade. Ou seja, é o mesmo que: por faltar os homens bons, a salvação de Deus é o que fará aumentar o número dos homens bons.
Qual o sentido da palavra bondade ou piedade dentro do contexto do versículo? O salmista teria observado os homens e percebido que eles não eram de dar esmolas? Estaria faltando homens que respeitassem as causas religiosas? Faltava compaixão entre os homens? Estes seriam os motivos pelos quais o salmista estava pedindo salvação a Deus?
Não! Não é esta a idéia que o salmo procura passar.
O salmista clama pela salvação dos homens, isto porque faltam os homens piedosos, ou seja, são poucos os fiéis entre os filhos dos homens. A primeira frase 'falta homens piedosos' é um paralelismo que equivale à segunda frase: 'são poucos os fiéis entre os filhos dos homens'. Tanto os fiéis quanto os piedosos referem-se aos mesmos homens.
Por que faltam os piedosos? Por que são poucos os fiéis? Por que a salvação de Deus supre esta necessidade?
Sabemos que todos os homens juntamente se desviaram e se fizeram imundos. Sabemos que não há entre os homens quem faça o bem, ou seja, que não há sequer um Sl 14: 3. Quando os homens juntamente se desviaram e todos se fizeram imundo? O único evento registrado nas escrituras que demonstra que todos se fizeram imundo e que desviaram de Deus decorre da desobediência de Adão.
Em Adão todos pecaram. Todos foram destituídos da glória de Deus. Todos os homens tornaram-se filhos da ira; filhos da desobediência de Adão. Todos quantos são nascidos somente da semente de Adão foram concebidos em pecado, e estão sujeitos a ira de Deus, uma vez que são filhos da desobediência. Todos quantos nasceram de Adão não podem praticar o bem! Todos eles são infiéis perante Deus.
Diante desta realidade terrível o salmista clama a quem pode salvar: Salva-nos, Senhor! Somente Deus pode livrar o homem da condição herdade de Adão. Quando o salmista diz que faltam os homens piedosos, ele não faz referência à falta de quem pratique caridade, ou a falta de quem não se de as práticas religiosas. Ao clamar por salvação, o salmista não estava considerando que estava cercado de hipocrisia, infidelidade e traição.
A conduta humana não faz os homens agradáveis a Deus. Não há como o homem fazer o bem aparte de Deus, visto que só é possível praticar o bem aqueles que são salvos por Deus.
Para ilustrar esta verdade Jesus demonstrou que é impossível a árvore produzir dois tipos de frutos, ou a fonte dar dois tipos de água. Aqueles que são nascidos de Deus são boas árvores, e, portanto, produzem bons frutos por estarem em Deus. Quem de Deus é nascido possui rios de água viva que correm no seu ventre, e por isso, não podem deitar outro tipo de água.
Todos quantos são nascidos de Adão nasceram da semente corruptível, e por isso não podem produzir o bem. Isto não quer dizer que os ímpios não possam praticar boas ações como auxiliar o próximo, exercer misericórdia, ser compassivo, etc. Estas ações diante de Deus não é o bem, visto que o que tem valor diante de Deus é o ser uma nova criatura. Se o homem é nascido de Adão não conseguirá fazer o bem, embora possa fazer boas ações. Quando o homem é nascido de Deus fará o bem, visto que as suas ações são feitas em Deus Jo 3: 21.
Como entender o versículo dois? O homem não pratica o bem quando mente ao seu próximo? Não podemos deixar de considerar que há um mal em mentir, mas não é este mal que levou o homem à condição de culpável diante de Deus.
Para entendermos este versículo precisamos ter em mente as proposições anteriores. Se somente a salvação de Deus pode fazer com que o homem faça o bem e seja fiel, não podemos entender que o mal reside na mentira que alguém fala ao seu próximo. Reitero que não é correto mentirmos aos nossos semelhantes, porém não é esta falta que levará o homem a perdição.
Onde está o mal? O mal que contamina todo o homem e as suas ações está no coração, de onde procedem todos os maus desígnios. O homem fala falsidade porque o seu coração é dobre. Ele fala com lábios lisonjeiros porque o seu coração é enganoso. Ou seja, a boca fala do que há no coração "Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca" (Mateus 12 : 34).
O problema do homem não está naquilo que ele diz, e sim no seu coração. Caso o coração do homem não seja renovado, tudo quanto disser será mau. Novamente Jesus enfatiza a idéia de que uma fonte não pode produzir dois tipos de água.
Por que Deus há de lançar fora o homem de coração dobre? Porque o ímpio não confia na salvação de Deus. Ele segue o seu coração, confiado que prevalecerá. Do que há em seu coração propala a boca: Com nossa língua prevaleceremos. Por ter um coração ímpio, o homem não reconhece o senhorio de Deus. Enquanto o salmista clama pela salvação de Deus, os ímpios não reconhecem que são escravos de um coração perverso "Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?" Jo 8: 33.
"Pela opressão dos pobres, pelo gemido dos necessitados me levantarei agora, diz o SENHOR; porei a salvo aquele para quem eles assopram" (v. 5).
Diante do clamor do salmista, eis a resposta divina!
Vale salientar novamente que os pobres e necessitados não se refere aos desprovidos de recursos materiais. Questão de ordem socioeconômica não torna o homem pobre ou rico diante de Deus. Os famintos da África não serão ouvidos pela sua condição social. Da mesma forma os abastados dos Estados Unidos da América não serão protelados por terem as maiores riquezas do mundo.
A opressão do pobre é o pecado! O gemido do necessitado é pela misericórdia de Deus. Quando o homem reconhece a sua condição no pecado, este é um pobre perante Deus. Quando o homem clama por salvação, este é o gemido do necessitado.
A salvação dos homens depende de Deus que diz: "... me levantarei agora, diz o Senhor". A salvação de Deus é já! É para o tempo presente: agora! Hoje é o tempo de salvação. É o Senhor quem salva o pobre de espírito, aquele que suplica por sua misericórdia e graça.
"As palavras do SENHOR são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes. Tu os guardarás, SENHOR; desta geração os livrarás para sempre. Os ímpios andam por toda parte, quando os mais vis dos filhos dos homens são exaltados" (v. 6- 8).
O salmista clamou ao Senhor por confiar nele. Confiar é o resultado para aqueles que são alcançados pela palavra do Senhor. Certo desta grandeza, o salmista compara a palavra de Deus como a prata após ser refinada completamente.
Deus disse que porá a salvo os seus, o salmista crê na salvação piamente: "Tu os guardarás, Senhor; desta geração os livrarás para sempre. A salvação de Deus é eterna.
Quando o homem não reconhece o senhorio de Deus sobre a sua vida, esta a honrar o que é vil.






